Os problemas – extras – que os missionários enfrentam em Portugal

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Há uns dias apenas, ouvimos um irmão brasileiro muito querido, aqui em Lisboa, afirmar com um certo ar de orgulho “eu chamo celular de celular e quem o chama de telemóvel, que me desculpe, mas é assim que no Brasil falamos e pronto!”.

Isso pode parecer algo plausível, não fosse essa, a representação fiel do que vemos de muito brasileiro nessa terra amada de Portugal, onde nos encontramos já há um ano e quase um mês em missão, pela Trans Mundial.

E o grande desafio desta nossa missão não é outra, diferente daquela que a Paula e o Walter têm encarado na Itália ou amigos meus no Egito, na Líbia, ou no Kirguistão – falar a língua para tocar o coração do povo a que foram chamados a alcançar. Entretanto, em se tratando de Portugal, a coisa reveste-se de um perigo a mais – a proximidade de uma cultura que não é, definitivamente mais a mesma. Sim. Eu que já fui missionário no Reino Unido, que lecionei na Irlanda do Norte, ensinei na Inglaterra, percebo que cá a coisa fica mais sutilmente difícil, justamente por crermos que temos com Portugal uma mesma língua e uma mesma cultura. Engano. Perigosamente, um engano.

Imaginem chamar privada – é, este vaso nada ungido que temos nos nossos banheiros, aqui chamados de “casa de banho” – de “sanita”. Descarga, da sanita, “autoclismo”. Ônibus, de autocarro. Trem, não como os mineiros chamam tudo e qualquer coisa, mas aqueles baitas, das estradas de ferro, de “comboio”. Ou como eu, logo que vim a primeira vez pra cá, a pedir um “durex”, para um grupo de senhoras da nossa igreja para “acabar um servicinho urgente nos fundos do prédio” (empacotar umas bíblias para enviar pelo correio), sem saber que estava a lhes pedir um … “preservativo”! Imaginem a confusão! E isso é apenas algumas das centenas de confusões na nossa comunicação.

O drama missionário e da contextualização do que temos trazido ao país, aumenta, quando sabemos, desde há apenas alguns meses, que 2/3 dos crentes da área metropolitana de Lisboa, uma das maiores e mais importantes regiões do país, são compostos por …estrangeiros. E adivinhem, a maioria destes, é de …brasileiros. E pior, em se tratando de igrejas brasileiras, menos de 1% da sua membresia é portuguesa. E o que nos deixa muito, mas muito tristes, é que estes que para cá vieram, desculpam-se no motivo de terem vindo para …ganharem Portugal para Cristo. Tem hora que me apetece pedir aí no Brasil – Não enviem mais missionários para este país! Ao menos, sem preparo.

Nas horas em que especialmente a Joyce, novata por cá, sofre por compreender não apenas um vocabulário que lhe parece estranho, mas até a maneira como formulam uma frase, nos perguntamos, como ela, a nós mesmos e em primeiro lugar, como é que teria sido se Jesus, ao contrário do que fez, tivesse vindo sem considerar a nossa cultura e falado a nossa língua?

Imaginem só o que esteve envolvido na génese da sua ação missionária –  Veio da Sua “terra”, ou melhor, do “céu”, vestiu a roupa da nossa humanidade, quando poderia ter usado o seu poder infinito, e a sua força e a sua onisciência, e tudo o mais para “encurtar” todo um processo. Mas preferiu ele o mais difícil e custoso – passar 33 anos – em carne e hoje através do Espírito – a andar conosco, a nos ouvir pacientemente, a falar como um de nós de maneira paciente e terna, do alto da autoridade de como qualquer um de nós, saber cada uma das nossas tentações e dores como humano que viveu.

Pois em cada situação que ele nos tem posto a experimentar por aqui, nos lembramos sempre disso – temos de vestir as sandálias (sim, o português já não usa tamancos como muitos aí ainda pensam) dos nativos e a eles falar-lhes como um igual, sobre um Deus que é o Emanuel – o Deus próximo, o que anda conosco. E fala português como eles, e não como um “brazuca” invasor!

Dia desses ainda vamos contar a vocês mais das situações absurdas pelas quais passamos!

Com amor, Rubinho e Joyce Pirola

*Em tempo, Portugal tem apenas 0,4% de evangélicos na sua população.

Joyce e Rubinho Pirola são missionários da RTM brasileira e servem na RTM Portugal.